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E se Michael Jordan tivesse jogado mais um ano com o Chicago Bulls?

Renato Campos
Renato Campos

Com a conclusão de “The Last Dance”, documentário em dez partes sobre a carreira de Michael Jordan, muitas pessoas ficaram com a mesma dúvida na cabeça: e se Jordan e o Bulls tivessem ficado juntos para mais uma temporada? O próprio MJ fala que gostaria de ter tentado mais um título, mas será que era possível?

Scottie Pippen e Phil Jackson: as grandes dúvidas

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Como o documentário mostra, as principais incógnitas eram Scottie Pippen e Phil Jackson. Ambos estavam bastante desgastados em sua relação com a direção da franquia, mas por motivos diferentes.

No caso de Pippen, o ressentimento era financeiro. Ele havia assinado um longo contrato de sete anos em 1991, que lhe pagou cerca de US$ 2,5 milhões anuais entre 91 e 1998, último ano de vínculo. A série aborda isso, e mostra como Pippen se sentiu desvalorizado pelo Bulls e queria sair para ganhar mais em outra franquia depois daquela temporada, e foi exatamente isso que ele fez. Entre 1999 e 2003, ganhou quase US$ 80 milhões em passagens por Houston Rockets e Portland Trail Blazers, antes de voltar ao Bulls por mais duas temporadas no valor total de aproximadamente US$ 10 milhões, entre 2003 e 2005.

Sendo assim, seria realmente bastante difícil convencer Pippen a assinar por mais um ano na realidade do Bulls, especialmente pelo fato dele já estar com 32 anos e saber que sua janela de oportunidade na liga estava terminando.

Já Phil Jackson nunca escondeu suas divergências com Jerry Krause, e ele mesmo diz que falou para Jerry Reinsdorf que não seria justo com Krause caso ele permanecesse. Phil sabia que o Bulls estava em final de ciclo e que dificilmente montaria um time campeão, e já estava de olho em outras oportunidades, tanto é que assinou com o Los Angeles Lakers após a temporada de 1999 para liderar o time que se tornaria tricampeão da NBA com Shaquille O’Neal e Kobe Bryant. É bastante provável, portanto, que Phil também não ficasse e o Bulls buscasse outro treinador.

E quem seria este outro treinador? A esta altura, com Michael no comando, provavelmente seria alguém que ele pudesse controlar e que jogasse do jeito que ele quisesse. Aos 35 anos e com seis títulos nas costas, é difícil imaginar que o melhor jogador de todos os tempos fosse aceitar um sistema de jogo diferente proposto por um novo treinador.

E o resto do elenco?

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Vários atletas importantes do elenco de apoio do Bulls tinham contrato terminando em 1998, e como disse Reinsdorf, seria difícil manter todos, pois estavam supervalorizados pela conquista do tricampeonato.

Steve Kerr assinou com o San Antonio Spurs pelo dobro de seu salário, e outros nomes importantes como Ron Harper e Toni Kukoc sairiam por ofertas mais lucrativas dentro dos próximos 12 meses. Além deles, Dennis Rodman estava em seu último respiro como jogador da NBA. Aos 37 anos, o errático ala-pivô não daria ouvidos a um técnico que não fosse Phil Jackson. Depois do campeonato de 1998, ele jogou apenas 35 partidas na NBA e foi cortado dos elencos de Los Angeles Lakers e Dallas Mavericks.

Com isso, Krause precisaria ir ao mercado para buscar jogadores de reposição para estes que estavam saindo, e é difícil imaginar que ele conseguisse montar um elenco tão forte para jogar com a incerteza de um novo treinador e ganhando menos do que o mercado podia pagar, já que o Bulls não estaria com uma folha de pagamentos tranquila. 

Temporada de locaute

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O fato da temporada 1998-99 ter sido encurtada por um locaute, resultado de negociações trabalhistas entre liga e jogadores, também não ajudaria o Bulls. A temporada começou apenas em janeiro, com 50 partidas disputadas por cada time durante a campanha regular. Com isso, vários times chegaram a fazer três partidas em dias consecutivos, e isso prejudicou muito times e atletas mais veteranos. É de se imaginar que Jordan, que havia jogado todos os jogos nas últimas três temporadas, fosse sentir o peso dessa maratona.

Ao final, não surpreendeu a ninguém que o vencedor foi o então jovem time do San Antonio Spurs, liderado por Tim Duncan, aos 22 anos de idade.

No Leste, o oitavo colocado New York Knicks levou a conferência e chegou até a decisão contra o Spurs, mas foi facilmente derrotado pelo rival em apenas cinco jogos. Com Jordan ainda no auge, podemos imaginar um cenário onde ele domina a fraca conferência e enfrenta o Spurs na final, mas será que um Bulls remendado e sem seus principais companheiros e técnico teria sido suficiente para fazer frente a um time com duas forças no garrafão, como eram Duncan e David Robinson?

O próprio Jordan também admite que, talvez, não teria conseguido jogar em 1999. Ele teve um acidente com um cortador de charuto que fez uma lesão profunda em seu dedo, que demorou meses para ficar boa. Mesmo assim, talvez ele não tivesse tido esta lesão caso estivesse jogando, então vamos presumir que ele estivesse saudável, para efeito desta especulação.

Além disso, como uma eventual derrota em finais teria impactado seu legado? Provavelmente teríamos visto ele em atividade por mais um ou dois anos no Bulls, podendo ter vencido até mais um MVP jogando “sozinho” em uma época onde ele liderava a liga em pontos. Isso teria sido melhor do que seu período com o Washington Wizards, mas como uma versão enfraquecida dos imbatíveis de Chicago teria mudado a forma como interpretamos o mito de Michael Jordan?

Por sorte, jamais saberemos essa resposta, já que sua carreira com o Bulls terminou de forma perfeita, com um arremesso que venceu uma final da NBA. Narrativa importa tanto quanto habilidade na comparação entre os melhores, e Jordan é praticamente imbatível em ambos os quesitos.

Dá um play e confira o que rola no nosso podcast!