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A história de Nikola Jokic, a estrela mais improvável da NBA

Rafael Balthazar
Rafael Balthazar

Na noite de 26 de junho de 2014, fãs de basquete ao redor do mundo paravam para assistir o Draft da NBA na TV. Todos os jovens prospectos aguardavam ansiosamente até que seus nomes fossem chamados e suas vidas transformadas para sempre. Bem, todos exceto um. O pivô sérvio Nikola Jokic estava simplesmente DORMINDO quando os Nuggets o selecionaram com a 41ª escolha. Jokic só acordou, ainda sem qualquer ânimo para sua nova vida, quando seu irmão o telefonou para comemorar a conquista. Aliás, a falta de interesse parecia vir também da NBA: Seu nome foi anunciado no meio de uma propaganda de uma rede de pizzarias dos Estados Unidos, num cantinho minúsculo da tela. Sem anúncio no palco, sem apertos de mão com o comissário da NBA, sem fãs empolgados e gritando seu nome. Assim começou a jornada do jogador que hoje é sinônimo de esperança para Denver.

A verdade é que ninguém queria Jokic. Ou melhor, muitos nem sabiam quem ele era, nem mesmo na Sérvia. Misko Raznatovic foi o primeiro a dar uma atenção especial ao jovem Nikola, depois de ler num jornal que ele tinha feito boas partidas pelo time local. De início, Misko achou que Jokic tinha bons números por ser apenas mais um desses jogadores maiores e mais desenvolvidos fisicamente que os demais, mas quando foi mais a fundo na história descobriu que era totalmente o contrário. Logo tratou de assinar com o garoto e levá-lo para um time profissional, o Mega Vizura.

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Por mais talentoso que fosse, ainda tinha um grande problema no caminho: Jokic estava extremamente acima do peso, não tinha músculos fortalecidos e segundo relatos não era capaz de fazer mais de uma flexão sequer. E sua dieta? Quase 4 litros de Coca-Cola diários e meio quilo de Böreks - um tipo de pastel turco - no café da manhã, vícios que ele só largou ao chegar em Denver. Misko e a comissão técnica do Mega Vizura logo perceberam que seu melhor jogador era apenas um garoto querendo jogar basquete, sem nenhuma pressão ou pretensão de futuro no esporte.

O que já era muito, se comparado ao início de sua adolescência. Ele simplesmente não gostava de basquete. Se o resto de sua vida já não fosse inusitada demais, Jokic treinava para se tornar corredor de cavalos. Até limpar celeiros fazia parte da rotina de treinamentos. Aos 10 anos ele tinha que ser arrastado pelo pai para os treinos de basquete, até desistir completamente do esporte para focar no seu objetivo na corrida. Apesar do sonho de infância não ter se realizado, até hoje Jokic demonstra ter apreço pelos animais, sendo visto frequentemente cavalgando com sua família e amigos nos períodos de férias da NBA.

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Voltou às quadras apenas aos 15 anos. Começou a tomar gosto pelo esporte e passava horas no youtube assistindo vídeos de seus ídolos. Aprendia sobre passes com lances de Magic Johnson, enquanto se encantava com jogadas de meia distância e jogo de pés de Hakeem Olajuwon. A partir daí não largou mais a bola de basquete, jogando em casa com seus dois irmãos e em clubes menores até a entrada de Misko em sua vida. Com muito apoio de sua família e do time do Mega, Jokic trabalhou duro e começou a mostrar, jogo após jogo, que seu talento o levaria para o estrelato.

Misko conta que além do talento monumental para o basquete, outra característica que chamava a atenção em Jokic era a sua aura infantil. Num evento de dia das crianças, enquanto outros jogadores participavam de forma protocolar e séria, Nikola passava o tempo pulando atrás de bolas, brincando com as crianças, se divertindo e correndo de um lado para o outro usando a cabeça de Koala do mascote do time que ele mesmo havia tirado só por zoação. Não demorou até que se tornasse o favorito das crianças do time. Na verdade, ele era, ao mesmo tempo, tão querido e tão atencioso com todo mundo que chegou ao extremo de ter tendinite por passar horas dando autógrafos e tirando fotos. Foram alguns dias de treino e jogos perdidos só por isso.

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As boas atuações na Sérvia chamaram a atenção de clubes ao redor da Europa, incluindo o Barcelona, que ficou muito perto de assinar com o jovem pivô. O negócio provavelmente teria ido adiante se Nikola não tivesse feito o pior jogo de sua vida quando os olheiros do Barça foram lhe ver. Não acertou absolutamente nada e parecia não conseguir se mover em quadra, segundo o que disseram. Apesar de à época um contrato com o Barcelona ser uma oportunidade única, tanto Misko quando Jokic não se arrependem de como as coisas aconteceram. Seu caminho era mesmo a NBA. 

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Em Denver, a competição pela posição de pivô foi intensa com Jusuf Nurkic, mas isso não impediu que Jokic encantasse a todos quando entrava em quadra. Sua velocidade não importava, seu peso não importava, sua posição não importava. Jokic fazia de tudo. À medida que ganhava mais minutos, mais e mais presenteava seus companheiros com passes mágicos e jogadas de efeito. Tudo isso enquanto, fora de quadra, continuava a ser o mesmo rapaz com espírito de criança que era na Sérvia. Sua temporada de calouro foi um completo sucesso, terminando em terceiro na premiação de calouro do ano e parte do primeiro time dos calouros. A partir daí, todos sabiam que estavam diante de algo diferente quando Nikola Jokic entrava em quadra.

Quatro anos depois, agora já All-Star e consolidado como um dos melhores jogadores da liga, o ‘’Joker’’ leva os Nuggets à primeira final de conferência da franquia desde que Carmelo Anthony ainda destilava seu talento pelo estado do Colorado. E isso ao seu melhor estilo, superando obstáculos e quebrando todas as expectativas alheias. Desde a infância na Europa até a fama nos Estados Unidos, toda a história de Nikola Jokic é sobre paixão, inspiração e superação. Independente de qual seja o resultado da final contra os Lakers, a maior vitória já foi conquistada. Está em todas as crianças que usam sua camisa ao redor dos Estados Unidos, em todos os fãs que acreditam que é possível e vibram a cada cesta e passe do Coringa, no povo da Sérvia que tem nele um ídolo e fonte de inspiração. Está naqueles que foram obrigados a engolir as críticas e se render ao Nuggets. Jokic não é movido por holofotes e troféus. Ele ainda é aquele garoto gordinho que só ama jogar basquete. E isso, nas palavras do próprio, é melhor do que qualquer corrida de cavalos.

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