Espalhe por Whatsapp

A cultura dos Bad Boys do Pistons na NBA

Thiago Agovino
Thiago Agovino

Se você é um fã atual da NBA e assistisse à uma partida dos “Bad Boys” do Detroit Pistons, especialmente nos Playoff’s, a chance de você ficar surpreso com as artimanhas defensivas daquela equipe seria altíssima. E quando digo fã atual, não se apegue ao ano em que estamos. Esse “atual” pode significar que você curte NBA desde 2008, por exemplo. Estou falando do estilo de jogo da década de 80, até mais ou menos a primeira metade da década de 90. O jogo da NBA era muito mais físico, de contato, aquele mais conhecido na gíria como “jogo pegado”.

E o Detroit Pistons com os famosos “Bad Boys” eram mestres nesta arte. Mas como surgiu esta fama e o nome? Este tipo de fenômeno geralmente acontece por um conjunto de situações e não somente à um fato isolado, e neste caso não foi diferente. De acordo com o jornalista Dan Holmes, a história da criação do nome e da fama dos Bad Boys passa, por exemplo, pela confecção de camisetas e bonés por um empresário nativo de Detroit na época, chamado Billy Berris, que tinha um logo criado para identificar o time com esse mantra.

Image title

Holmes também conta que, após as Finais de 1988, quando o Pistons perdeu para o Lakers a série decisiva em 7 jogos, a NBA produziu uma espécie de resumo em documentário sobre a temporada de cada time, e um editor de cópias nomeou a fita do Pistons como “Os Bad Boys”. A derrota para o Lakers, inclusive, teria sido o estopim inicial para uma mudança de cultura em Detroit, onde o time se tornaria mentalmente mais forte, e não só na mentalidade, mas também no estilo de jogo. Coincidência ou não, o time foi bicampeão da NBA nos anos seguintes, em 89 e 90.

Outro fator que contribuiu muito para legitimar o significado do nome Bad Boys e o porquê daquele time ser conhecido desta maneira passa pela influência do líder da equipe, o armador Isiah Thomas. Curiosamente, Thomas é nascido em Chicago, e o Bulls foi um dos times que mais sofreram nas mãos dos Bad Boys. Mas isso a gente vê mais para frente na nossa conversa.

Image title

Isiah cresceu em um dos bairros considerados mais ruins de Chicago na década de 70, então, ele tinha aquela famosa lábia que só a rua ensina, não levava desaforo para casa e carregava uma competitividade enorme dentro de si. Ele não ficava contente somente com a vitória, mas literalmente com a destruição do adversário. Este espírito, aliado com a sensacional habilidade para o jogo, o transformavam num verdadeiro pesadelo para qualquer adversário.

Quando entrou para a NBA com 20 anos de idade, Thomas já estava acostumado a ser o armador baixinho na terra de gigantes, experiência que as quadras de rua de Chicago ensinaram à ele. De certa forma, a NBA era até um território menos hostil neste sentido. Um jogador com este tipo de personalidade era o comandado ideal para outro fator importante na implantação da cultura de defesa forte que o Detroit exercia. O treinador Chuck Daily.

Sob o comando de Daily, o Detroit implementou o estilo “Defesa de 28 metros”, ou seja, os jogadores do Pistons tinham que defender o adversário por toda a extensão da quadra, para tornar o mais difícil possível à eles estabelecerem seus esquemas ofensivos. Até então, este não era um comportamento habitual. As equipes, em geral, se posicionavam na defesa e “deixavam” o adversário organizar o ataque. Era quase um “acordo” entre os times. Os Bad Boys não iriam respeitar mais isso. Se o ritmo da partida fosse ser quebrado por este “novo modelo” eles não iriam ficar nem um pouco preocupados.

Este comportamento agressivo na defesa levou o time do Pistons na época a ter fama de “sujo”, mesmo não tendo liderado a Liga na época, por exemplo, em número de faltas, sejam as comuns de jogo ou as técnicas, que estão mais relacionadas à atitudes, gestos ou agressões verbais. Agora, se você fosse levar em consideração as encaradas, as provocações e o intenso contato físico, aí a liderança deles era absoluta.

A aceitação do time para este papel de Bad Boys foi fundamental para estabelecer esta cultura e estilo da equipe e passou pelo vídeo que comentamos no começo desta matéria. Isiah Thomas, ao tomar conhecimento do nome que constava no vídeo de resumo da temporada de 88, soltou a seguinte frase “Então acho que somos os Bad Boys”. Desta forma ele praticamente assumia em nome da equipe a nova personalidade do Detroit. O treinador Chuck Daily complementou “Não sei sobre o nome, mas o que sei é que nosso time não vai fugir disso”, explicou. Todos no elenco abraçaram a ideia. Joe Dumars, Bill Laimbeer, Rick Mahorn, John Salley, Dennis Rodman e outros atletas se divertiam com a situação e era possível perceber isso nos jogos. Os adversários não tinham vida fácil na mão dos Bad Boys. O Chicago Bulls que o diga.

Image title

Não é incomum em discussões sobre a dinastia do Chicago, que foi do início até pouco mais da metade dos anos 90, ver torcedores e analistas creditando aos Bad Boys do Pistons a “culpa” pela ascensão de Michael Jordan e Scottie Pippen.  No final da década de 80, o Detroit eliminou o Chicago em três anos seguidos dos Playoff’s, dois deles nas Finais do Leste. Na época, os Bad Boys eram acusados de serem agressivos demais contra Michael Jordan, cometendo faltas duras e desleais. Jordan tinha que trabalhar extremamente duro para conseguir fazer um arremesso. Esta marcação ficou conhecida como “The Jordan Rules” ou “A Regra Michael Jordan”.

Image title

Image title

Esta situação fez com que Michael Jordan, Scottie Pippen e a chegada de um novo treinador chamado Phil Jackson, remodelassem a mentalidade do time do Bulls. Fisicamente eles se tornariam mais fortes também. Desta forma, o Chicago finalmente venceria o Detroit em 1991, quando os times se encontraram novamente nas Finais do Leste, e por sonoros 4 à 0. A quarta partida, que foi disputada em Detroit, tem uma cena histórica dos Bad Boys, onde os jogadores titulares do Pistons que estavam no banco, liderados por Isiah Thomas, foram embora antes do final da partida e não cumprimentaram os jogadores do Bulls.

Image title

Após a derrota para o Chicago, o time dos Bad Boys foi sendo desfeito. James Edwards e Vinnie Johnson saíram da equipe com passe livre. O treinador Chuck Daily pediu demissão após a temporada 1991’92. Começava um período de transição em Detroit. Em 1993, Bill Laimbeer se aposentou. Em 1994 foi a vez do armador Isiah Thomas. Dennis Rodman e John Salley também saíram e o time afundou em uma má campanha em 1993’94. No ano seguinte, Grant Hill foi escolhido no Draft e uma nova história começou a ser escrita.

Mesmo após tantos anos, o time dos Bad Boys ainda é lembrado por muitos torcedores quando o assunto é intensidade e defesa. É claro que sempre foi muito discutido o fato de ser um time violento, maldoso, mas em geral, tratava-se de uma equipe com excelentes jogadores defensivos e com um preparo físico invejável. A ESPN tem um documentário que indico para que você conheça um pouco mais sobre a história dos Bad Boys, chama-se “ESPN 30 for 30”, conforme a imagem abaixo. Se você é fã da NBA, vale muito à pena assistir.

Curta a Hoop78 no Facebook