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O draft de 1956, Bill Russell e patinação no gelo: Como o Boston se tornou a maior dinastia da NBA

Guilherme Borges
Guilherme Borges

Essa é uma das histórias mais inacreditáveis que você, fã da NBA, pode ter lido, ou lerá, em poucos instantes. Ela é tão cheia de mitos, folclores e “bizarrices” que chega a ser cômica. Pois é justamente dessa história totalmente disléxica que nasceu a maior dinastia da NBA vista até hoje: a do Boston Celtics. Foi depois do draft de 1956 que o Boston Celtics saiu do status de time que “simplesmente” chegava nos Playoffs pra se tornar a maior potência da NBA durante longos anos, fazendo dez aparições consecutivas em finais (1957-1966) faturando o campeonato em nove delas. O grande responsável por esse crescimento dos Celtas é ninguém mais ninguém menos que Bill Russell. Mas, vamos com calma, cada coisa em seu tempo. Como dizem por aí: “senta que lá vem história”.

A Pick Territorial

Eu sei que ao falar do draft desse fatídico ano todos, automaticamente, lembram de Bill Russell. O que talvez você não saiba é que, tecnicamente, ele não foi a primeira escolha do Celtics no Draft. Sim, isso mesmo. A primeira escolha do Celtics no Draft de 1956 foi o garoto local Tommy Heinsohn (Thomas William Heinsohn). Tommy entra pro time de injustiçados da NBA. Nesse time estão todos aqueles jogadores com uma história memorável mas que nunca são lembrados como um dos maiores de todos os tempos (esse é o caso de Tommy para todos que não são torcedores do Boston Celtics). Ele teve sua camisa 15 aposentada pelo Celtics; manteve médias de 18 ppg, 8.8 rbpg e 2.0 apg em sua carreira; foi Rookie of The Year no ano de 1957 (não, não foi Bill Russell) e também foi pro Hall da Fama. Quer mais? Bom, ele é o único homem que atuou, de alguma forma, nos DEZESSETE títulos do Boston Celtics (sendo que em oito deles Tommy participou como jogador, e em dois como Técnico da equipe). O currículo dele é gigante.

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Tommy Heinsohn

Mas como um cara desse tamanho acabou indo para um time que tinha acabado de sair do playoffs? você pode me perguntar. Bem, na época, a NBA tinha uma regra que possibilitava os times a realizarem uma, antes do Draft, uma “Territorial Pick”, ou seja, uma escolha baseada na localidade geográfica. Nessa escolha, os times poderiam somente escolher garotos que tivessem jogado na Região da própria equipe. O intuito da regra era fazer com que houvesse uma identificação imediata entre os fãs locais de determinada universidade e a franquia, sendo extremamente benéfico tanto para a NBA como para as universidades. Para a felicidade do Celtics, Tommy estudava em Holly Cross, universidade de Worcester, Massachussets, estando na mesma região de Boston. Por isso, Heinsohn foi escolhido antes de qualquer outra pick do draft. Com a escolha territorial o Boston perdeu a pick do “draft comum” (sétima pick). Tom, contudo, não foi o suficiente para Red Auerbach (então técnico Celta) que na verdade tinha como “a menina dos seus olhos” um outro jogador: o Pivô Bill Russell. Como conseguir a suposta escolha número um do draft sem possuir ao menos uma pick? A mente criativa de Red nos responde.

O Draft e a Escolha

“Se eu tivesse a chance, eu pegaria Russell. Ele com certeza vai ser a pick número um do draft.” Essa frase foi dita por Red ao jornal Boston Globe. Tudo que Auerbach queria era ter a chance de draftar Bill Russell. Só uma chance. Para isso ele precisaria: conseguir pelo menos uma escolha entre o top3 da liga e convencer os outros times acima da sua posição a não draftar Russell. A primeira ousadia de Red, então, foi forçar o Boston Celtics a trocar dois futuros jogadores do Hall da Fama (Ed Macauley, o “Easy Ed”; e Cliff Hagan, conhecido pelo seu gancho, que mais tarde foi aperfeiçoado por Kareem Abdul-Jabar), pela segunda escolha do draft com o então St. Louis Hawks. Uma curiosidade nessa parte é que poucos times sabiam da regra de que a equipe que utilizasse a Pick Territorial perderia a sua Pick no Draft comum, então, alguns jornalistas dizem que além dos dois jogadores, Red também teria “enganado” o Hawks e vendido a ideia de que a troca seria, na verdade um “pacote” onde estavam inclusos a sétima pick (que ele não tinha mais, já que já tinha draftado Tommy na pick territorial) e os dois jogadores. Azar do Hawks que não sabia que o Boston já não tinha mais sua escolha. A primeira parte do plano estava completa: conseguir uma pick entre o top3 do draft. Agora a parte mais difícil: convencer o então Rochester Royals, que tinha a primeira pick desse draft, a não escolher Bill Russell. Como se essa história já não fosse totalmente bizarra, mais algumas “estranhices” ainda iriam acontecer.

Os Globetrotters, o Ice-Capades (equipe de patinação) e Bill Russell

Esse subtítulo poderia muito bem ser o título de um filme de comédia de Hollywood. Mas se fosse um filme com certeza seria “baseado em fatos reais”. Vou ligar os pontos pra você.

Walter Brown, então dono do Boston Celtics, era também um dos donos de uma famosa equipe de patinação no gelo da época, o “Ice-Capades”. Essa equipe fazia performances teatrais no gelo e frequentemente envolvia atletas da seleção olímpica dos Estados Unidos, e o time Nacional de Patinadores dos EUA em seus shows. A atração foi tão famosa que durou dos anos 1950 até meados de 1995. “E o que isso tem a ver?”. Bom, “reza a lenda” de que Red convenceu Walter a ligar para o dono do Rochester Royals (Lester Harrison) e prometer uma série de shows do Ice-Capades na quadra da equipe adversária (o que seria extremamente rentável) em troca do time não escolher Bill Russell na primeira posição do draft. Repare: um dos maiores jogadores de todos os tempos estava prestes a ser trocado por alguns shows de patinação artística. A NBA, praticamente com organização amadora, nada fez a respeito. Auerbach espalhou por aí todos os detalhes desse folclore. Não existem registros de que essa história é verdade, contudo, os fatos comprovam: O Rochester não draftou Bill, que foi escolhido pelo Boston na segunda escolha; e o Ice-Capades fez mesmo shows na quadra do Rochester em 1957.

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Dupla em apresentação dos fantásticos Ice-Capades

Por mais incrível que pareça estudiosos da NBA que analisam as trocas da época tentam dar diversas explicações mais plausíveis (ou menos malucas) para a “não escolha” do Rochester Royals. Alguns dizem que os técnicos tinham dúvida de que Russell seria tão bom no basquete profissional como era no amador; outros dizem que é porque Russell não tinha sido chamado para participar do time Olímpico do Estados Unidos. Mas a explicação que eu mais gosto, e que sinceramente, pode te fazer gargalhar, é essa: muitos acreditavam que Bill Russell receberia uma proposta irresistível do Harlem Globetrotters. Sim, isso mesmo que você leu. Os GM’s da NBA tinham medo de perder uma estrela da Universidade para um time de acrobacias com a bola de basquete. Isso porque na época, os Globetrotters eram muito conhecidos e a NBA nem tanto, sendo que muitos jogadores famosos da universidade acabaram indo para o time de malabaristas.

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Bill Russell assinando seu contrato com o Celtics.

Seja porque um time sem pick e sem perspectiva repentinamente draftou Bill Russell e veio a se tornar o Boston Celtics que conhecemos hoje; seja porque o Calouro do Ano não foi Bill Russell; seja porque uma das maiores lendas da NBA foi trocada por um time de patinação; ou então porque os GM’s da liga tinham medo de perder uma estrela para um time que fazia piruetas com a bola de basquete; nós havemos de convir que essa história é uma das melhores que a NBA já nos proporcionou. Você pode escolher a versão que achar mais legal e repassar por aí. No final, Bill Russell acabou sendo um Celta. Bom, pelo menos os fãs do Royals puderam apreciar bons shows de patinação no gelo!

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