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Trash Talk: o combustível da NBA

Guilherme Borges
Guilherme Borges

Com direito a três prorrogações, 76ers e o Thunder nos proporcionaram uma belíssima partida quando as franquias se enfrentaram na Filadélfia pela temporada 2017-18 da NBA. Além disso, essa partida trouxe uma nostalgia interessante que me fez querer conversar com vocês sobre um assunto quase em extinção na NBA atual: o Trash Talk.

Durante a referida partida, o pivô Joel Embiid fez questão de provocar o time todo do Oklahoma: chamou a torcida de casa para o jogo; deu “tchauzinho” para o Adams quando ele cometeu a sexta falta e foi ejetado do jogo; e até bateu boca com Westbrook. O comentarista da ESPN daquela noite desaprovou a atitude do camaronês. Eu me diverti! Mais do que isso, me lembrei de que alguns dos mais incríveis acontecimentos da NBA, só foram tão incríveis por conta do Trash Talk.

Vale lembrar, primeiramente, que o Trash Talk não deve ser entendido como violência. Nós abominamos tal atitude. O Trash Talk, em sentido amplo, é aquela provocação falada (ou não), que aumenta a competividade entre os atletas e enrique o espetáculo para os fãs. Alguns técnicos, GM’s e jogadores dos “tempos antigos” sabiam disso melhor do que ninguém.

Convido você para embarcar comigo nessa viagem ao passado e analisarmos alguns dos mais históricos momentos da NBA e que tiveram sua magnitude engrandecida pela “arte” de “falar besteiras”. Que tal olharmos, em especial, uma das equipes mais antigas da liga – Boston Celtics, e sua rivalidade com outra das franquias mais antigas da NBA – Lakers, para vermos se rolava ou não esse Trash Talk? Se liga!

Red Auerbach – O Charuto

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Uma das situações mais irritantes da vida é quando as pessoas “cantam” vitória antes da hora. Auerbach, o icônico técnico, e posterior GM do Celtics nas décadas de 50/60/70 e 80 dominava isso como poucos. Muitos comentaristas chamavam o charuto de Red de “charuto da vitória”. O mais interessante nessa história toda é que na verdade, Red não acendia seu charuto somente após a vitória (para comemorar). O técnico tinha a mania de fazê-lo justamente quando a partida estava no finalzinho e o Celtics liderava por poucos pontos, ou seja, quando a outra equipe ainda poderia encostar no placar; e, até mesmo, quando a partida estava empatada. Esse ritual do técnico irritava profundamente os jogadores. Vale lembrar que ele fazia isso sentado em pleno banco e reservas, no meio do estádio, e no final das partidas com a bola quicando. O jogador Tommy Hawkins, do Lakers, inclusive, declara que: “tinha vontade de enfiar o charuto no nariz dele”. A maioria dos analistas do esporte considera essa prática de Rod como o começo do Trash Talk.

M.L. Carr – A Toalha

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Se Red inventou o Trash Talk, M.L. Carr o aperfeiçoou. O ala do Celtics dos anos 80 foi, provavelmente, um dos jogadores que tinha a maior capacidade de irritar seus adversários. Eu coloquei como símbolo do M.L Carr, a toalha que ele insistentemente rodava no ar quando o time estava ganhando. Mas essa toalha tem uma história mais incrível. Nas finais de 1948, talvez a mais icônica da história, ML Carr balançou sua toalha irritando os jogadores e torcedores do Lakers, principalmente no jogo cinco.

No último jogo da série, contudo, roubando a pratica do amigo, quem entrou na provocação e passou a rodar a toalha foi, ninguém mais, ninguém menos que Larry Bird. A história, vocês já sabem: o Celtics venceu o Lakers pela sétima vez nas finais, em um 4-3 que ficou para história.

Mas a toalha era só um fragmento da ousadia de Carr, sendo que alguns outros momentos representaram muito bem a personalidade do jogador. No jogo 6 dessa final de 1984, o Celtics visitou o Lakers, no lendário Fórum. Antes da partida , Carr bateu na porta do vestiário do Lakers e gritou: “Venham aqui levar uma surra como homens”. Pat Riley, então técnido do LAL, imediatamente se direcionou a sua equipe, no mesmo tom: “Olha aí, estão vendo!? Eles vêm até aqui e não respeitam vocês!”. O Celtics perdeu essa partida, mas mesmo assim, a audácia é cômica. De volta ao Garden, no último jogo da série, Carr esperou os jogadores visitantes no túnel e quando os Lakers passavam por ele, o ala dizia: “hoje não. Hoje não. Eu começo uma revolta, mas vocês não saem daqui vivos com essa vitória”. Que figura!

The Garden – O símbolo

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O Garden, estádio do Celtics da época, era o símbolo do Trash Talk do time de Boston. É estranho ter como uma personagem dessa história um estádio? Então deixa eu te explicar melhor. O Garden não tinha ar condicionado. Não tinha ventiladores que funcionassem no vestiário dos adversários (e as janelas não abriam). O ex-jogador e ex- técnico da NBA, Phill Jackson, escreve em seu livro “Onze Anéis: a alma do sucesso” que, quando enfrentou o Boston como jogador do Knicks, ele e seus companheiros de time ficaram em um vestiário onde nenhum deles conseguiam ficar completamente em pé sem bater a cabeça no teto. Os jogadores do Lakers, na final de 84, enfrentaram tanto calor (comentaristas dizem que fez entre 36 e 46 graus célsius no estádio) que tiveram que utilizar aparelhos para respirar. Aliás, até mesmo o árbitro, em uma das partidas, passou mal e teve que sair do jogo. No ano seguinte, o time de LA levou ao Garden seus próprios ventiladores, e até sua própria água, com medo de que Red tivesse colocado alguma substância na água do estádio que fizesse com que os jogadores passassem mal.

Cedric Maxwell – “He can’t guard me”

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“Ele não consegue me marcar”. Essa frase foi eternizada por Jordan e depois por Kobe. Muitos jogadores a utilizam até hoje. O que poucos sabem é que ela nasceu com Maxwell. Ainda nas finais de 1984, depois de uma incrível enterrada em cima, simplesmente, de James Worthy (em uma jogada de dois pontos e falta), o ala celta proferiu: “He (Worthy) can’t guard me (ele não consegue me marcar)”. Max fez uma declaração interessante sobre essa situação: “Worthy se tornou um jogador melhor que eu posteriormente? Sem dúvidas! Mas naquele jogo em particular, e naquele momento em particular, eu o coloquei no bolso. Foi como adestrar um cachorro”. Max e Carr ainda se juntaram para realizar um dos momentos mais engraçados da história do basquete, quando, no final do jogo 7 de 1984, com a vitória garantida, eles imitaram uma comemoração que Magic fazia com seus companheiros, apontando um para o outro e se cumprimentando no ar. Foi realmente divertido (se você não era um dos fãs do Lakers).

O Boston praticamente criou os Trash Talks (como nós conhecemos hoje), e esse seu estilo depois foi passado para outras equipes e jogadores. Apesar disso, essa não era a única faceta desse time, e eles estavam longe da violência e de depender disso para ganhar. Era simplesmente uma artimanha. E como era divertida!

Eu sei, deixei de fora vários momentos de provocação que entraram para história. Mas então, faz assim: me corrige aí e deixe nos comentários qual o momento de Trash Talk você mais gostou; qual mais te marcou; ou qual foi mais histórico, na sua opinião, pra gente lembrar juntos!